top of page

Corpo e território das infâncias: proteger o acervo cultural e a liberdade de ser

  • Foto do escritor: Maria Zuquim
    Maria Zuquim
  • 24 de mar.
  • 3 min de leitura

A forma como uma criança vive o espaço e o tempo molda quem ela se torna.

É no corpo em movimento, no brincar livre e na experiência presente que se constrói aquilo

que carregamos para a vida inteira.


Esse conjunto de vivências forma o que podemos chamar de acervo cultural da infância: um

patrimônio sensível feito de experiências, gestos, memórias e relações que sustentam o

desenvolvimento emocional, social e criativo ao longo da vida.


Proteger esse acervo é proteger a própria infância.



O que compõe o acervo cultural da infância


O acervo cultural da infância não é feito apenas de conteúdos ensinados ou conhecimentos

transmitidos. Ele se constrói, sobretudo, na experiência vivida.


Fazem parte desse acervo:


* as brincadeiras compartilhadas;

* as canções, histórias e jogos que atravessam gerações;

* os desenhos feitos sem intenção de acerto;

* o correr, o dançar, o falar alto, o experimentar;

* o tempo gasto explorando um espaço sem pressa.


Mas também fazem parte as criações espontâneas da própria criança, aquilo que nasce do

corpo em ação, da curiosidade e da imaginação.


Esse acervo não é estático. Ele se transforma conforme a criança vive, sente e se relaciona

com o mundo. E é a experiência, e não o consumo, que mantém esse patrimônio vivo.


Tempo presente e espaço livre: condições essenciais da infância


A infância acontece no agora.

No tempo presente.


O brincar, o sentir e o se expressar não se dão no futuro, nem na antecipação de

resultados. Eles acontecem no instante vivido, em espaços que permitem liberdade de ação

e de imaginação.


No entanto, as possibilidades de acesso a esses tempos e espaços têm diminuído. As

infâncias de hoje vivem, cada vez mais, em ambientes fechados, controlados e

excessivamente protegidos. Lugares onde o risco é eliminado, mas, junto com ele, também

se perdem a descoberta, a autonomia e a construção de repertório.


Antes, ruas, quintais, praças e a própria natureza faziam parte do território cotidiano das

crianças. Hoje, o espaço de experiência se estreita, e com ele, o acervo cultural que poderia

ser construído.


O impacto das telas no corpo e no território


O uso excessivo de telas intensifica esse afastamento.

Não apenas do espaço físico, mas também do tempo real.


Quando a infância se dá majoritariamente mediada por telas, o corpo se movimenta menos,

o território é reduzido e as experiências sensoriais se empobrecem. A criança deixa de

construir referências fundamentais: memória dos caminhos, percepção espacial, repertório

sonoro, visual, linguístico e afetivo.


Além disso, quando não vivencia desafios fora de ambientes totalmente controlados, a

criança tem menos oportunidades de lidar com frustrações, dificuldades e imprevistos,

experiências essenciais para o desenvolvimento emocional.


Esse distanciamento não afeta apenas a infância. Ele se prolonga na vida adulta, criando

corpos cada vez mais isolados, com menos recursos para se relacionar, sentir e conviver.


Arte, corpo e território: um papel urgente


Quando a arte não se abre às infâncias, ela também contribui para esse empobrecimento

de experiências.

Espaços culturais que não acolhem o corpo da criança reforçam a separação entre corpo,

território e tempo presente.


Por isso, é fundamental ampliar os modos de pensar a arte: em escala, em linguagem, em

temas e em formas de fazer. A arte pode, e deve, colaborar na criação de territórios onde as

crianças possam existir de forma inteira, sensível e livre.


A Cidadela como espaço de vitalização da infância


A Cidadela nasce como um gesto de cuidado com esse acervo cultural.

Um espaço onde corpo e território se reencontram.


Ao propor uma experiência artística baseada no movimento, no sensorial, na coletividade e

na liberdade de exploração, a Cidadela cria condições para que as crianças vivenciem o

presente com intensidade. Aqui, o corpo não é contido, é convidado. O tempo não é

apressado, é habitado.


Mais do que uma exposição, a Cidadela é um território de vivências coletivas. Um espaço

onde o brincar, o sentir e o criar são reconhecidos como formas legítimas de relação com o

mundo.


Proteger o acervo cultural da infância é garantir que as crianças possam explorar, imaginar

e construir sentidos a partir da própria experiência.


Porque a liberdade de ser não é um privilégio.

É um direito que começa no corpo e se expande no território.

 
 
 

Comentários


bottom of page