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A Cidadela: quando o corpo se torna morada da arte e da infância

  • Foto do escritor: Maria Zuquim
    Maria Zuquim
  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

O que acontece quando deixamos de olhar para o corpo apenas como estrutura e

passamos a entendê-lo como casa? Quando o corpo deixa de ser limite e se transforma em

território?


A exposição Cidadela nasce dessas perguntas. Uma experiência artística sensível que

propõe reconhecer o corpo como morada, cidade viva e espaço onde memórias, emoções e

infâncias habitam.





Uma casa que nasceu no corpo


Antes de existir como exposição, a Cidadela começou como uma história contada em casa.

A artista e idealizadora do projeto, Maria Ezou, inventava narrativas para sua filha Lina

adormecer. Em uma delas surgiu a Casa Memória: uma casa imaginária onde cada janela

guardava a lembrança de um dia vivido.


Durante a gestação de seu segundo filho, Martin, essa imagem ganhou outro sentido. Maria

percebeu que seu próprio corpo havia se tornado uma casa habitada, atravessada por

emoções, transformações e presenças.


Foi ali que a casa imaginada se transformou em corpo vivido. O corpo passou a ser

pensado como território múltiplo, composto por muitas casas coexistindo. Nascia, assim, o

conceito central da Cidadela: o corpo como uma grande cidade, formada por Casas-Corpos.


Uma cidade em escala de infância


Essa ideia se materializa em quinze Casas-Corpos, organizadas como uma cidade em

miniatura. As paredes são de tecido, como peles. As portas e janelas estão na altura do

olhar infantil.


Aqui, não é a criança que se adapta ao espaço; é o espaço que se constrói a partir da

infância. Cada casa abriga um minimundo sensorial feito de luzes, cores, texturas, cheiros e

sons. Não há explicações a seguir — há experiências a atravessar. Na Cidadela, a arte não

é observada à distância; ela é vivida com o corpo inteiro.


Um território livre para sentir


A Cidadela foi concebida como um território livre. As estruturas que sustentam a cidade

lembram raízes, espalhando-se pelo espaço em um percurso orgânico e circular, sem começo nem fim rígidos. Um desenho que afirma que o corpo aprende em movimento e que

o sentir vem antes do explicar.


Aqui, a infância não é contida, acelerada ou silenciada: ela é acolhida.



Arte como encontro


A Cidadela não é uma exposição "para crianças"; é uma exposição para todas as infâncias.

Adultos são convidados a desacelerar, baixar o corpo e mudar o ponto de vista,

compartilhando o espaço na mesma altura das crianças.


Esse gesto simples cria algo raro: um território real de convivência entre gerações. A

criança sente-se pertencente; o adulto reaprende a sentir.


Mais do que uma exposição


A Cidadela é um posicionamento. Ela afirma que as crianças são sujeitos sensíveis,

capazes de fruir arte complexa. Reforça que a arte para as infâncias não precisa ser

excessiva, didática ou explicativa: o sensível e o sutil também são caminhos.


Ao respeitar o tempo, o corpo e o modo de existir da criança, a Cidadela amplia a noção de

acesso, pertencimento e formação de público. Porque quem vive uma experiência artística

significativa na infância carrega essa memória para a vida inteira.


A cidade que continua depois da visita


A Cidadela não termina quando a visita acaba. Ela segue dentro do corpo: na memória que

se ativa, no olhar que desacelera, na pergunta que permanece.


Ao reconhecer o corpo como casa e a arte como morada, a Cidadela nos lembra de algo

essencial: habitar é sentir. E sentir, desde cedo, é um direito.

 
 
 

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