O desafio do “não lugar”: por que as artes visuais ainda ignoram as infâncias?
- Maria Zuquim

- 29 de jan.
- 3 min de leitura
“Não encoste.”
“Não corra.”
“Não faça barulho.”
Essas frases soam familiares para quem já tentou atravessar um espaço de arte
acompanhado por uma criança. O que poderia ser um território de descoberta, curiosidade
e sensibilidade acaba, muitas vezes, transformando-se em um espaço de contenção e
silêncio forçado.
Essa experiência recorrente revela uma pergunta urgente: por que as artes visuais ainda
oferecem tão pouco espaço real para as infâncias?

O que é o “não lugar” das artes para as infâncias
O “não lugar” não diz respeito apenas à ausência física das crianças nos espaços de arte.
Ele aponta algo mais profundo: a forma como esses espaços são pensados sem considerar
a infância como ponto de partida.
Um lugar só existe plenamente quando é vivido; quando permite troca, presença, diálogo e
experiência.
O “não lugar” surge quando as crianças até podem estar ali, mas não são consideradas na
organização do espaço, na curadoria, na escala ou na forma de fruição. Surge quando não
há abertura para que experimentem a obra com o corpo inteiro — tocando, explorando,
movimentando-se e imaginando.
Assim, o “não lugar” não é apenas a proibição explícita: é também o silêncio estrutural que
impede a experiência.
Os muitos “nãos” que afastam as crianças da arte
Esse afastamento acontece de maneiras diferentes, algumas mais visíveis, outras mais
sutis.
O “não” direto: É o mais evidente. São as regras que limitam o corpo da criança: não
encostar, não correr, não fazer barulho, não se aproximar demais. Esses “nãos”
interrompem a fruição e transformam a arte em algo distante, quase intocável.
O “não” sutil: Mais silencioso e, muitas vezes, mais profundo. Está presente na forma
como exposições são concebidas sem reconhecer a infância como público legítimo. São
obras e espaços que não dialogam com o modo como as crianças percebem o mundo,
criando um distanciamento que não precisa ser verbalizado para ser sentido.
O “não” do sistema da arte: Este é estrutural. É a ideia de que existe uma “arte maior” e,
abaixo dela, uma “arte para crianças”, frequentemente relegada a ações educativas ou
programações secundárias. Como se a arte destinada às infâncias precisasse sempre
justificar sua existência por meio de um objetivo pedagógico e não pudesse existir
simplesmente como experiência estética.
O círculo vicioso da ausência
Quando a arte não é pensada para as infâncias, poucas obras são criadas para esse
público. Com poucas obras, os espaços expositivos não se abrem. Sem espaço, os artistas
sentem-se desestimulados a criar.
A ausência se repete.
Muitas exposições chamadas de “infantis” acabam sendo adaptações de obras que nunca
foram concebidas para crianças, reforçando a ideia de que a infância é sempre um
acréscimo, nunca o ponto de partida.
Corpos livres que incomodam
Na raiz desse problema está a forma como o sistema da arte se construiu historicamente:
como espaço de poder, prestígio e hierarquias. Nem todos os corpos são bem-vindos
nesses territórios. E os corpos das crianças — livres, curiosos, ruidosos e em movimento —
frequentemente atravessam fronteiras que o sistema tenta manter intactas.
Desde cedo, aprendemos a domesticar os corpos: sentar direito, falar baixo, ocupar pouco
espaço. As crianças, por ainda não terem internalizado completamente essas regras,
revelam o quanto essas normas são artificiais. E isso incomoda.
Por que romper com o “não lugar” é urgente
Excluir as crianças da experiência artística não é apenas uma questão de acesso; é uma
questão de formação de sensibilidade, pensamento e presença.
A arte tem o poder de afrouxar os nós do tecido social. Mas, para isso, precisa estar
disponível desde cedo, em sua complexidade, sutileza e potência. Reconhecer a criança
como sujeito estético, capaz de sentir, interpretar, criar e se relacionar com a arte, é um
passo fundamental para construir uma sociedade mais crítica, plural e sensível.

A Cidadela como contraponto
É nesse contexto que a Cidadela se apresenta como um gesto de ruptura.
Ao pensar o espaço expositivo a partir do corpo da criança, de seu tempo e de seu modo de
explorar e sentir, a Cidadela afirma que a infância não é um problema a ser contido: é um
território a ser habitado.
Aqui, não se pede silêncio; pede-se escuta. Não se proíbe o corpo; convida-se ao
movimento. Romper com o “não lugar” é, antes de tudo, reconhecer que a arte só se torna
inteira quando todas as infâncias podem habitá-la.





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