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Três pilares para a arte que acolhe: escala, temas de interesse e o fazer da infância

  • Foto do escritor: Maria Zuquim
    Maria Zuquim
  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

Como criar experiências artísticas que realmente dialoguem com as crianças? Como

construir espaços onde a infância não precise se adaptar, mas possa existir com inteireza?


Pensar arte para as infâncias exige deslocamento. Exige rever lógicas, abandonar padrões

adultos e criar a partir de outra escuta. Na Cidadela, essa construção se apoia em três

pilares fundamentais: a escala, os temas de interesse e o fazer da infância. Eles não

funcionam como regras fixas, mas como princípios que orientam escolhas, espaços e

relações.



1. A escala: ver o mundo a partir da altura da criança


Trabalhar na escala da infância não significa apenas diminuir o tamanho das coisas;

significa mudar o ponto de vista.


É compreender o corpo da criança, suas proporções, seus gestos e a forma como ela ocupa

o espaço. É inverter a lógica comum dos ambientes culturais, onde as crianças precisam se

adaptar à altura, ao ritmo e às normas do mundo adulto. Quando a escala parte da infância,

algo essencial acontece: o adulto é convidado a desacelerar, a baixar o corpo e a olhar

junto.


Na Cidadela, portas, janelas e percursos são pensados a partir do olhar infantil. Isso permite

que as crianças caminhem, corram, dancem, engatinhem e explorem com liberdade,

enquanto os adultos reaprendem a ocupar o espaço com outro tempo e outra atenção. A

escala, aqui, não é apenas física: ela é também relacional.


2. Temas de interesse: ir além do entretenimento fácil


Pensar nos temas de interesse das crianças vai muito além do que é considerado “divertido”

ou chamativo. É reconhecer que a infância é atravessada por questões profundas, sensíveis

e universais.


Muitas propostas culturais destinadas às crianças apostam em estímulos excessivos: cores

intensas, sons constantes, tecnologias chamativas e experiências pensadas para o

consumo rápido. São espaços que impressionam à primeira vista, mas oferecem pouco

lugar para o silêncio, a observação e a reflexão.


A criança, porém, não é um público passivo. Ela observa, sente, interpreta e cria sentidos a

partir da própria experiência. Ampliar os temas de interesse é confiar na capacidade da

infância de se relacionar com obras que não explicam tudo, que não entregam respostas

prontas e que provocam curiosidade, estranhamento e pensamento. Oferecer arte às

crianças não é simplificar o conteúdo: é aprofundar a escuta.



3. O fazer da infância: corpo em movimento, imaginação em ação


Na infância, o corpo é linguagem. É pelo movimento que a criança se expressa, aprende e

se relaciona com o mundo. O espaço, nos primeiros anos de vida, é uma extensão do

próprio corpo. Por isso, garantir o fazer da infância é permitir que a criança sinta, explore,

toque, repita, investigue e brinque de forma autônoma.


Esse fazer envolve persistência, curiosidade e repetição — ações que constroem

conhecimento e ampliam repertórios. É no experimentar contínuo que surgem novas

conexões, perguntas e descobertas.


Na infância, as linguagens ainda não estão separadas. Som, imagem, movimento, palavra,

matéria e imaginação acontecem juntos. A arte que dialoga com esse tempo precisa

respeitar essa integração, oferecendo espaços onde o corpo possa existir sem contenção

excessiva e onde o brincar seja reconhecido como forma legítima de relação com a arte.


Uma arte que escuta, integra e confia


Quando escala, temas de interesse e o fazer da infância caminham juntos, a experiência

artística se transforma. A arte deixa de ser um lugar de adaptação forçada e passa a ser um

território de encontro. Esses três pilares apontam para uma mesma direção: confiar na

potência sensível, perceptiva e criativa das crianças.


Criar arte para as infâncias é reconhecer que elas são capazes de construir sentidos, criar

vínculos e desenvolver um repertório cultural próprio quando encontram espaços que

respeitam seus corpos, seus tempos e seus modos de existir.


Na Cidadela, essa escolha é prática e posicionamento. Porque acolher a infância na arte

não é um gesto complementar: é um compromisso com o presente e com o futuro que se

constrói a partir dele.



 
 
 

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